segunda-feira, 30 de novembro de 2009

São Jorge, Cidade






Jorge era o nome de um soldado romano nascido na antiga Capadócia, região do sudeste da Anatólia, hoje República da Turquia. Residindo na corte do Imperador e vendo a crueldade do império romano contra os cristãos, o imperador Diocleciano tinha planos de matar todos que possuiam a fé cristã e no dia marcado para o senado confirmar o decreto imperial, Jorge levantou-se no meio da reunião declarando-se espantado com aquela decisão e afirmou que os ídolos adorados nos templos pagãos eram falsos deuses. Todos ficaram atônitos ao ouvirem estas palavras de um membro da suprema corte romana, defendendo com grande ousadia a fé em Jesus Cristo. Como Jorge mantinha-se fiel ao cristianismo, o imperador passou a realizar torturas contra o soldado. Jorge reafirmava sua fé, tendo seu martírio aos poucos ganhado notoriedade e muitos romanos tomado as dores daquele jovem soldado. Finalmente, Diocleciano não tendo êxito mandou degolá-lo no dia 23 de abril de 303, em Nicomédia. Após a sua morte, os cristãos santificaram o soldado como São Jorge, devido a sua luta em favor do cristianismo e dos mais humildes. No Brasil é o santo padroeiro dos escoteiros e no futebol, do Sport Club Corinthias Paulista.
Em 1981, surgia no antigo posto de gasolina Texaco, de propriedade de Vítor Porto dos Santos, no bairro Rincão Comprido, o Esporte Clube São Jorge. Um dos fundadores da equipe juntamente com Vitor foi João Correa, que na época, era funcionário do posto. “O Vitor teve a ideia de fazer um time com a gurizada que tinha no bairro e então decidimos dar o primeiro passo”, conta João. Sobre o nome São Jorge, ele diz que Vitor era devoto do santo e resolveu eleger este nome para a equipe. Os primeiros jogos foram disputados no Estádio Darcy Martin na categoria juvenil contra uma equipe montada pelo Delegado Morais. Correa recorda que o São Jorge venceu os dois jogos, o primeiro por 4x0 e o segundo por 8x0. Após, Walter Beskow cedeu por empréstimo um espaço ao lado de sua empresa e a equipe passou a ter o seu campo, às margens da RSC 287. Foi então formado o time adulto, que contou com os seguintes jogadores: Jarbas Braga, Pedro Oliveira, Valinho, Telminho, Roni Braga, Mauro Jordam, Chico Vargas, Clóvis Braga, Renato Machado, Daison Machado, Nilvo Machado, Gerson Souza, Ivanez Correa, Pingo, Bira, Levino, Nescafé, entre outros. João Correa era o treinador. A equipe disputou amistosos contra Tiradentes, São João (Cortado), São Cláudio (Cortado), Minuano, União, Camboim, entre outros. “No início, o Camboim era o nosso principal adversário, pois jogava no mesmo campo. Jogar contra eles era um clássico e dividia os torcedores aqui no Rincão”, lembra.

SANTA CRUZ – O fundador lembra também de um amistoso do São Jorge contra a equipe profissional do Futebol Clube Santa Cruz. Ele diz que na véspera da partida havia circulado uma informação em Santa Cruz de que os jogadores do São Jorge eram violentos. “Eles ligaram e queriam cancelar a partida. Dei a minha palavra que nada iria acontecer”, destaca. E de fato, o amistoso foi disputado no Estádio Darcy Martin de forma leal. O segundinho empatou em 3x3 com os reservas e juvenis e a equipe principal foi derrotada por 4x2 pelos profissionais do galo.

Após dois vices, a conquista do municipal de 86
João Correa, Jairo Gilberto Karnopp, Gerson Souza, Cláudio Gehres e Danilo Karnopp lembram que a equipe iniciou a sua trajetória em municipais em 1983. Neste ano, João, Gerson e Cláudio recordam de um fato inusitado antes da partida contra o Pinheiro. Havia chovido forte no sábado à noite. No domingo pela manhã, os membros do São Jorge fizeram uma vala e com vassouras, panos e baldes, conseguiram escoar a água do campo e dar condições para a realização da partida à tarde. O jogo terminou empatado em 1x1 e o São Jorge foi eliminado pelo Pinheiro. No segundinho, a equipe chegou na final, mas acabou derrotada pelo União, do Capão do Valo. Em 1984, o São Jorge chegou à sua primeira final após eliminar o o Cruzeiro, do Capão do Valo. Na partida de volta, disputada no Juventude, depois de um pênalti assinalado em favor do São Jorge, iniciou uma confusão generalizada. O Cruzeiro se retirou de campo e a equipe do Rincão Comprido avançou para as finais contra o Olarias, que faturou o título ao vencer por 2x1. No segundinho, o São Jorge conquistou o título ao derrotar o Minuano por 1x0, gol de Alberto. A partir deste campeonato, começa a se consolidar uma rivalidade forte entre São Jorge, Minuano e Olarias. “Estes jogos eram os clássicos da cidade e era o principal assunto nas rodas de conversa durante a semana, tamanho era o fanatismo pelo futebol”, conta Cláudio. Em 1985, o São Jorge chegou novamente às finais após eliminar o Botucaraí nas semifinais. Na decisão, a equipe da cidade enfrentou o Minuano. Pelo segundo ano seguido, o verde e branco do Rincão Comprido ficou com o vice ao ser derrotado por 2x0.

VIRADA – Em 1986, o São Jorge reforçou o seu plantel com jogadores de outros municípios. A equipe buscou atletas de Rio Pardo, Pantano Grande, Santa Cruz do Sul e Restinga Seca. Jairo Karnopp salienta que esta equipe ficou marcada por ser o “time da virada” por buscar resultados adversos extremamente difíceis. Nas semifinais, disputadas no Estádio Darcy Martin, a equipe enfrentou o Minuano, algoz no ano anterior. No primeiro jogo, após estar perdendo por 3x1 no primeiro tempo, a equipe do Rincão buscou a virada e a vitória por 4x3. Na segunda partida, o São Jorge confirmou a vaga na final ao vencer a equipe da Vila Fátima por 4x1. Na decisão, disputada em jogo único, mais de duas mil pessoas assistiram no campo do Juventude, a final entre São Jorge x Olarias. No primeiro tempo, o Olarias abriu 2x0. Na etapa final, o alvi-verde do Rincão empatou com dois gols de Roberto. A decisão foi para a prorrogação e Luciano, na época profissional do Avenida, de Santa Cruz, fez o gol da vitória e do título para o São Jorge. A equipe campeã foi formada com Zeiro, Telminho (Gilson), Abacate, Bafú e Bentão (Careca). Jair, Chico Vargas e Roberto. Taxinha, Luciano e Renatinho. Após o título, o São Jorge não disputou os municipais de 87 e 88, voltando em 89, onde acabou eliminado na 1ª fase. Depois, a equipe precisou devolver o campo a Walter Beskow e por falta de uma praça esportiva foi desativada. Ao analisarem o futebol da época com o futebol atual, os integrantes da equipe do São Jorge, salientam que hoje o futebol é mais organizado, mas que o de antigamente possuía mais vibração. “Naquela época, todos os times eram fortes e as comunidades ajudavam e participavam ativamente, pois o futebol era o único lazer de fim de semana. Hoje, existem muitas facilidades e opções de lazer, que acabaram contribuindo para o desinteresse dos jovens na prática da modalidade”.

Candelária, da cidade







Um cidadão de origem simples, mas que tinha no futebol a sua razão de viver. Amava o que fazia e era respeitado por todos que o cercavam por seu caráter honesto e digno e pelo amor que tinha para com o próximo. Assim era Adão Dias, mais conhecido por Tio Mico, o fundador do Esporte Clube Candelária, agremiação que levou o nome do município através do esporte para os mais diversos recantos, sempre no anseio de formar novas amizades por meio do futebol.
Adão Dias, o Tio Mico, faleceu no dia 13 de fevereiro de 1993, com 64 anos de idade, vítima de um derrame. Mas até hoje, ele é lembrado no meio esportivo principalmente pelo amor que tinha pelo futebol. A esposa do fundador, Teresa Dias, mais conhecida por dona Bidônia, conta que Tio Mico era um apaixonado pelo futebol. Em 1966, ele foi um dos fundadores do Esporte Clube Ouro Verde, de Linha Bernardino. Conhecido por seu talento como mergulhador, já que ajudava a salvar vítimas de afogamento, e por trabalhar na manutenção de açudes no interior, no fim da década de 1970, o esportista decidiu vir morar com a família na cidade, onde passou a exercer as funções de funcionário na antiga Ferragem Hintz. Como o futebol no interior era forte, dona Bidônia conta que na época existia na cidade apenas o futebol praticado pelo Juventude aos finais de semana.
Com o objetivo de fomentar a prática do futebol na cidade, Tio Mico e Paulo Obiraci Machado decidiram fundar, em 1979, a equipe do Esporte Clube Candelária. O campo ficava onde hoje é o da escola Lepage. No início, o Candelária realizava amistosos aos domingos. “Na época, pagávamos uma caução para a equipe visitante e quando retribuíamos a visita, o mesmo valor era devolvido”, conta a esposa do fundador. Sobre o trabalho que Tio Mico desenvolveu à frente do Candelária, dona Bidônia relata que não tinha tempo ruim para seu marido organizar o futebol. “Sempre aos sábados à tarde, ele escolhia uma criança e levava junto para o Lepage ajudar ele a cortar a grama e a marcar o campo. No domingo pela manhã, saía cedo com um carrinho, pegava a bebida na distribuidora do Zanata e já colocava na copa para ser vendida à tarde”. Dona Bidônia relata ainda que Tio Mico também confeccionava as redes para as goleiras e cuidava do fardamento, das bolas e ainda escalava o time. “Ele gostava de ver todo mundo bem.Se alguém não tinha chuteira, o Tio Mico comprava e dava para os jogadores mais humildes. Ele amava organizar o futebol”, resume.

20 jogos sem perder
O Candelária contou com grandes jogadores na sua época. Faziam parte da equipe, Jarbas Braga, Rogério Sch-wantz, Luis Carlos da Silva (Lucas), Paulo Obiraci Machado, Eliseu Brixner, Elges Santos (Macega), Francisco Ivanez da Rosa (Chico), Valdomiro Beloti, Lauro Rehbein, Ari Bortsmann, Valdemar Schwantz (Maia), Valdir Schwantz (Tiza), Paulinho Glanzel, Adão Onildo, Sérgio (Pelé), Saul Costa, Alberto da Rosa (Taxinha), José Luís Gomes, Mauro Trindade (falecido), Loir Ellwanger, entre outros. O lateral esquerdo da equipe, Elges Santos, o Macega, hoje com 57 anos, conta que a equipe tinha grandes jogadores do futebol candelariense naqueles tempos. O ex-jogador conta que a equipe chegou a ficar 20 jogos sem perder para nenhuma equipe. “Tínhamos um time muito bom. Era difícil de nós sermos derrotados nos amistosos, pois tínhamos um time bem estrosado”, conta. A equipe disputava amistosos em Candelária, em outras cidades da região e até em outras partes do Estado. “Uma vez jogamos um amistoso contra o Botafogo, do Travessão Schoenfeldt. Eles tinham um grande time e não perdiam para ninguém. Fomos lá e vencemos eles por 8x1”, recorda. Um dos destaques da equipe era o meia Maia. “Ele tinha uma facilidade para jogar impressionante e era muito inteligente. Com o Maia em campo, era difícil nós perdermos algum jogo”, salienta.

MUNICIPAL – Macega conta que o Candelária disputou o municipal de campo de 1983. Ele lembra que o time havia vencido todos os jogos e estava a uma vitória de ir para a final. “Jogamos com o Olarias na Linha do Rio. Saímos vencendo por 2x0. No segundo tempo, a arbitragem marcou dois pênaltis duvidosos em favor do Olarias, que empatou o jogo. Após a partida, houve uma confusão e acabamos eliminados daquele campeonato”. Depois disso, Tio Mico e os demais membros acabaram se desgostando e passaram a realizar somente os amistosos. Alguns anos depois, foi formado o veteranos do Candelária, que participou de um dos campeonatos na época. Em 1987, devido a uma enfermidade, Tio Mico acabou se afastando do futebol e a equipe terminou. “O Tio Mico adorava fazer o esporte, ele dava a vida, tinha prazer em fazer o futebol e conquistar novos amigos”, finaliza Macega.
Dona Bidônia também salienta a paixão do marido. “Ele era querido por todos e muito respeitador. Fico feliz em poder homenagear ele, que era um apaixonado pelo esporte”, completa.
Tio Mico se foi, mas até hoje o seus ideais estão vivos e na memória de cada um que vivenciou ao seu lado o sentido de se fazer o verdadeiro futebol.

Na foto que ilustra a matéria aparecem Jarbas Braga, Luis Carlos da Silva (Lucas), Paulo Obiraci Machado, Eliseu Brixner, Elges Santos (Macega), Francisco Ivanez da Rosa (Chico), Valdomiro Beloti, Lauro Rehbein e Tio Mico. Ari Bortsmann, Valdemar Schwantz (Maia), Paulinho Glänzel, Adão Onildo e Sérgio.

Tiaraju, Capão Claro







Um herói guarani reconhecido por lei no Rio Grande do Sul. Nascido em 1722 na região de São Luiz Gonzaga, Sepé Tiarajú foi um índio guerreiro que se tornou líder dos indígenas guaranis na chamada guerra guaranítica. Segundo a história, tudo começou em 1750 após a assinatura do Tratado de Madri entre Portugal e Espanha, onde foram delineados os limites territoriais entre portugueses e espanhóis na América do Sul. Após a assinaura do tratado, os índios guaranis residentes na região dos Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul, se recusavam a deixar as suas terras e transferir-se para o outro lado do Rio Uruguai. Com apoio dos jesuítas, em 1754 teve início a Guerra Guaranítica entre os índios e as tropas luso-brasileiras e espanholas. Um dos principais líderes guaranis foi o capitão Sepé Tiaraju, que comandou milhares de nativos na luta para manter seu território na região das missões até ser assassinado na Batalha de Caiboaté, ocorrida em São Gabriel, em 7 de fevereiro de 1756. Após sua morte, a resistência guarani chegou ao fim em maio de 1756. Diante do heroísmo de Sepé Tiarajú pelo povo guarani, a nível estadual, a Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade no dia 18 de novembro de 2005, o projeto de lei - de autoria do deputado Frei Sérgio - que declara Sepé Tiaraju como “herói guarani missioneiro rio-grandense” e institui o dia 7 de fevereiro (data da morte do líder indígena) como o dia oficial do Estado em homenagem à memória do índio guerreiro.
Em Candelária, surgiu em 1967, na localidade do Capão Claro, a equipe de futebol Esporte Clube Tiarajú. Segundo um dos seus fundadores, Abrilino da Silveira, hoje com 64 anos, ele e os irmãos Pedro, Paulo e Sérgio Silveira, mais conhecido por Sheko, tiveram a ideia de formar um time para realizar uma atividade de lazer. Sobre o nome da agremiação, Abrilino e o capitão da equipe, Paulo Obiraci Machado, atualmente com 59 anos, contam que foi uma sugestão de Pedro, como referência ao herói guarani. O campo do time ficava na propriedade de Fermino Soares da Silveira, o Gurizinho, que era pai dos fundadores. Os primeiros jogos foram amistosos contra equipes da região. O Tiarajú jogou contra Pinheiro, Albardão, Picada Escura, Boa Esperança (Capão do Valo), Bexiga, Independência (Bom Retiro), Gaúcho (Linha Palmeira), entre outros. “Uma vez fomos jogar um amistoso no Albardão. Um trator com reboque estava nos levando e no meio do caminho alguém deixou cair um toco de cigarro em cima do saco com as camisetas. Como tinha muito vento, rapidamente começou a pegar fogo no saco. Rapidamente nós controlamos as chamas, mas acabamos perdendo algumas camisetas”, conta Obiraci. Abrilino também relata que o Tiarajú estava invicto a 18 partidas amistosas e que aquele jogo com o Albardão, quando aconteceu o incêndio, marcou a primeira derrota do time.

Mais de 30 taças no currículo
O Tiarajú era um time que tinha bastante fama na época por ser imbatível nos torneios. Segundo Paulo Obiraci Machado, era difícil a equipe não disputar as finais das competições. “Tínhamos um time muito forte e sempre ficávamos em primeiro ou em segundo nos torneios” lembra. A equipe era formada com Luzimar Larger, Abrilino Silveira, Paulo Obiraci Machado, Milton Soares e Sheko Silveira. Pedro Silveira, Paulo Silveira e Mauro Flores. Sílvio Moraes, João Fermino e Rogério. Jogaram ainda Onofre Soares, Alemão, Chupim, Sapo, entre outros. Pedro Silveira era o treinador. “ O Pedro (já falecido) era uma pessoa sensacional e nos incentivava muito nos jogos. Tínhamos um respeito muito grande por ele”, conta Paulo. O ex-capitão ainda lembra que antes dos torneios, a equipe sempre fazia uma concentração na propriedade de Gurizinho, aos sábados, para treinar o time e organizar pescarias para integrar a equipe. “Na época, nós imitávamos as concentrações da dupla Grenal e preparávamos o time para os torneios no domingo, era muito divertido”, recorda.

REGIONAL – Abrilino e Paulo falam de um torneio regional, organizado pelo Boa Esperança, do Capão do Valo, que contou com a participação de 23 equipes, vindas de Candelária, Rio Pardo e Cachoeira do Sul. O torneio foi realizado no dia 21 de dezembro de 1969 e a equipe do Tiarajú sagrou-se campeã daquela competição. “Já era escuro e na final vencemos um time de Cachoeira do Sul. Após, me lembro que ergui a taça no salão de Carlitos Freitas”, diz Paulo. Abrilino ainda relata um desafio proposto pelo Tiarajú na época. “Vencemos um torneio no Daer, em Rio Pardo. Após receber a taça, desafiamos os organizadores a realizarem uma seleção do torneio para jogar um amistoso no domingo seguinte. Eles aceitaram e no amistoso derrotamos a seleção deles por 3x1”, conta um dos fundadores. A equipe do Capão Claro não chegou a disputar campeonatos municipais. O Tiarajú existiu até meados de 1978 e acabou porque alguns membros da equipe já estavam parando com o futebol devido à idade.

ATUAL – Comparando com o futebol da época, Paulo e Abrilino compartilham da mesma opinião. “Naquele tempo era bonito de ver as famílias torcendo, com cerca de 500, 600 pessoas participando em um clima de amizade e integração. Hoje, o dinheiro tomou conta e não existe mais o mesmo sentimento de amizade”, diz Paulo. “Antigamente não se pagava juiz para apitar nos torneios de onze e os eventos reuniam entre 10 e 20 times. Hoje, se você não paga uma boa arbitragem, não tem jogo. Se foi o tempo de se jogar por amor à camisa”, resume Abrilino.

Rio Branco, Linha Curitiba






1977. Um ano marcado pela frieza política da ditadura militar no comando do Brasil. Aliada à força política da época, durante o governo Geisel, acontece a criação do estado do Mato Grosso do Sul, fruto da divisão com Mato Grosso. 77 é o ano da quebra dos tabus no esporte. No futebol, o Corinthians conquista um título depois de 23 anos, ao vencer a Ponte Preta na final do Campeonato Paulista, e o Grêmio, comandado por Telê Santana, quebra a série de oito títulos gaúchos do Inter ao derrotar o colorado na final por 1x0, no famoso gol “cambalhota” de André Catimba. Na pacata Candelária, o futebol já mexia com a cidade e o interior devido à fama do campeonato municipal de futebol. Movidos pela febre que o esporte exercia na época, dois jovens, um residente na Linha Curitiba, e outro na Linha Brasil, resolvem fundar, naquele ano, a equipe do Esporte Clube Rio Branco, da Linha Curitiba.
O pedreiro Juarez Scotta, hoje com 47 anos, e o comerciante Rogério Schwantz, 48 anos, foram os jovens que em 1977 idealizaram o time da Curitiba. Segundo Scotta, ele morava com os pais na Linha Brasil e trabalhava na Curitiba, onde conheceu Schwantz e outros jovens. “O futebol era a grande febre da época. Como nós gostávamos do esporte e o time mais próximo aqui era o Ouro Verde, eu e o Rogério tivemos a idéia de fazer um time na localidade”, conta. O campo da equipe ficava na propriedade de Silfredo Wagner. Sobre o nome do time, Scotta diz que o Rio Branco não tem nenhuma relação com o nome do Clube Rio Branco (existente até hoje) e da escola Rio Branco (atual sede da Igreja Sinodal). “Na época eu escolhi Rio Branco por não existir nenhum outro time na cidade e na região com essa denominação”, garante.

NOVE PÊNALTIS – Scotta recorda que o primeiro compromisso do Rio Branco foi um torneio de futebol na sede do Coqueirinho, na Vila União. Conforme ele, a equipe foi à tarde para a localidade e, ao chegar, se deparou com uma competição que já tinha entre oito e nove times. “O pessoal da região da serra era fanático por futebol e sempre realizava grandes torneios na época.” Schwantz, que era o goleiro do Rio Branco, diz que o campo onde foi disputado o torneio ficava no leito de um açude que tinha sido secado dias antes. Como tinha vários times, a maioria dos jogos foi decidida nos pênaltis. Scotta lembra que naquela tarde, Rogério Schwantz defendeu um total de nove pênaltis, levando o Rio Branco para a final. “O Rogério pegava muito e aquele dia ele estava inspirado”, destaca. Na decisão, a equipe da Linha Curitiba foi derrotada nos pênaltis pelo Flor da Serra. A façanha do Rio Branco no torneio foi muito comemorada pela equipe devido às dificuldades registradas durante a competição.

A zebra do municipal de 77
Pouco tempo depois de ter sido fundada, a equipe da Linha Curitiba acabou entrando pela primeira e única vez no Campeonato Municipal de Futebol. Scotta lembra que aquele campeonato teve um tempero especial com as transmissões esportivas de alguns jogos pela Rádio Princesa através do Padre Alfredo. “O padre era um grande incentivador do esporte e aquelas transmissões ajudavam a motivar ainda mais os times e os torcedores para a disputa do campeonato”, diz. No municipal, a equipe principal do Rio Branco foi formada com Rogério Schwantz, Taquara, Larri, Juarez Scotta e Eloir. Joni, Hilton Schroeder, Cabo Américo e Leri Ávila. Jonas Kaercher (Pelêgo) e Ciro. Jogaram ainda André Spengler, Edinho, Nildo Rodrigues, Volnei Escobar, Enar Saueressig, Vilmar Rohde, Valmor Bortsmann, Toco, entre outros. Arno Bortsmann era o técnico da equipe. O Rio Branco enfrentou times como Botucaraí, Gaúcho, Canarinho (Rebentona), Renascença, Candelária, Ouro Verde, Olarias, entre outros. Rogério lembra dos dois confrontos contra o Olarias, considerado o grande time da época. No primeiro turno, o azulão de Linha do Rio venceu o Rio Branco, que estava desfalcado, com uma goleada por 11x1. “Após aquela goleada, viramos motivo de chacota dos adversários. Os próprios membros do Olarias diziam, em tom de brincadeira, que iriam nos golear dentro da nossa casa, que no primeiro tempo viraria cinco e no final 10x0 para eles”, conta Rogério. No jogo pelo returno, em Linha Curitiba, o público lotou o campo do Rio Branco para ver uma nova goleada do Olarias, mas se surpreendeu ao ver o show do goleiro Rogério Schwantz e do centroavante Ciro, que foi decisivo ao marcar dois gols na vitória do Rio Branco por 2x1. “Aquela vitória valeu mais que um título, pois tiramos a invencibilidade deles no campeonato. Foi a maior zebra da história”, recorda Scotta. No campeonato, o Rio Branco chegou somente até a 2ª fase nas duas categorias e o Olarias foi o campeão ao vencer o Renascença na final, conquistando o bi-campeonato. “Por termos vencido eles, gentilmente o seu Agenor Schunke, presidente do Olarias, nos convidou para fazer a preliminar do jogo de entrega de faixas entre Olarias x juvenis do Grêmio”, lembra Rogério. Após, a equipe seguiu por mais algum tempo disputando amistosos, onde enfrentou times como o Onze Estrelas (Linha Brasil), Olaria (Vila Botucaraí), Botafogo (Travessão Schoenfeldt), 25 de Julho (Picada Roos), entre outros. Em meados de 78, a equipe foi desativada porque Scotta e mais alguns membros da equipe terem se desligado da localidade.
ATUAL – Depois do Rio Branco, a localidade de Linha Curitiba nunca mais teve um time de futebol onze. Nos anos 90, surgiu no futebol sete a equipe do Flamengo e após, a equipe do Curitiba, que sagrou-se campeão municipal em 2004. Atualmente a localidade participa pelo segundo ano seguido do municipal de futsal com a equipe do Curitiba. Ao analisarem o futebol da época, Juarez Scotta e Rogério Schwantz relatam o amor à camisa que existia entre os jogadores. “Naquela época, se dava valor aos jogadores da localidade para participar dos campeonatos. Hoje, os times renegam os pratas da casa e preferem pagar jogadores de fora. Por isso que o nosso futebol está acabando”, avaliou Scotta. Rogério também compartilha a mesma opinião. “Na época do Rio Branco, às vezes íamos a pé para jogar e caminhávamos cinco, 10km por dentro das lavouras para jogar um amistoso. A partir do momento que se teve a infeliz idéia de se pagar jogador, o nosso futebol deixou de ser varzeano para se tornar semi-profissional, onde somente os times com poder financeiro sobreviveram e os pequenos acabaram extintos”, finalizou.

União, Linha Boa Vista










Trincheira ou Linha Boa Vista. Uma localidade próxima da área urbana de Candelária que nos áureos tempos era conhecida pela aviação e pelo futebol. Lá existia um hangar que abrigava aviões de pequeno porte, sendo naquela época, uma referência na região. No futebol, já existia o América , fundado em 1971. Em pouco tempo depois, em meados de 1972, surgia a equipe do Esporte Clube União, da Linha Boa Vista.
Quem relata as histórias da equipe é o aposentado Hilton Steil, o popular Menegueti. Com 76 anos, "Seu Menegueti" conta que o União surgiu porque ele, Valdomiro Kochenborger, Arnoldo Pereira, Ari Hintz, Danilo Oliveira, entre outros, gostavam do futebol e queriam oportunizar momentos de lazer, nos domingos, para os membros da comunidade. O campo da equipe ficava na propriedade de Valdomiro Kochenborger, próximo ao trevo da localidade com a RSC 287. Menegueti relata que nos primeiros anos, o União disputava apenas amistosos, onde enfrentou agremiações de Cerro Branco e equipes tradicionais da época, como Tabacos, Botafogo (Travessão Schoenfeldt), Flor da Serra, Pinheiro e Cruzeiro (Linha Travessão). Menegueti, que além de fundador, era treinador da equipe, destaca uma vitória do União em um jogo amistoso que a equipe disputou contra o Botafogo no Travessão Schoenfeldt. “Estávamos perdendo no primeiro tempo por 2x1. No intervalo, eu paguei um refrigerante para cada atleta e dei uma chamada neles. No segundo tempo partimos para cima e nos acréscimos o Irio fez o gol e vencemos eles por 4x3. Após o jogo, o presidente deles chorava pela derrota, pois o Botafogo jamais tinha perdido um amistoso em casa”, conta. Um dos primeiros times do União foi formado com Paíca, Pedro, Morango, Ivan Machado e Rudimar. Ildo Rodrigues, Ricardo (Rascunho) e Enio Sanmartin. Ivo Rodrigues, João e Pedrinho. O contabilista Ildo Rodrigues, atualmente com 54 anos, relata outra jornada da equipe em amistosos na época. “Fomos jogar no sábado um amistoso contra o Flor da Serra em Picada Karnopp. Na subida, o nosso ônibus estragou. Como não tínhamos como voltar, toda a equipe teve que pernoitar no ônibus. Sem sono, acabamos indo em um baile no Salão Otto e no domingo pela manhã, ressacados, fomos jogar o amistoso. Somente no fim da tarde conseguimos voltar para a cidade”, lembra. Sobre os clássicos com o América, Menegueti diz que eram grandes jogos. “Não me recordo bem, mas acredito que o União tenha vencido mais partidas contra o América”, destaca o fundador.
Título bateu na trave em 1978
Em 1975, o União passou a disputar os campeonatos municipais. A equipe enfrentou agremiações como Botucaraí, Olarias, Minuano, Tabacos, América, Pedras Brancas, Minuano, Candelária, Renascença, Ouro Verde, Gaúcho (Linha Travessão), entre outros. Nos primeiros anos, não chegou entre os finalistas. Em 1978, o União obteve a sua melhor campanha ao chegar na final e decidir em seus domínios o título daquele ano contra o Olarias, que havia conquistado o municipal em 76 e 77. Segundo o Jornal Nossa Opinião, a decisão foi em duas partidas. No primeiro jogo, disputado na Linha do Rio, empate em 1x1. No segundo jogo, na Linha Boa Vista, vitória do Olarias por 3x1. “Saímos vencendo no primeiro tempo por 1x0. Na etapa final, o nosso goleiro foi infeliz em alguns lances e acabamos perdendo a final”, lembra Menegueti. Aquela conquista marcou o tricampeonato municipal do Olarias. O grupo do União foi formado com Fredão, Luis, Lampião, Pedrão e Orlando Gass. Bugrinho, Alceliro, Enio Sanmartin e Portinho. Rascunho e Irio Schünke. Após, os municipais tiveram uma parada e o União seguiu apenas disputando amistosos até 1983. Dirceu da Rosa Gomes era um dos atletas da equipe e recorda que o time jogava todos os domingos, na sua maioria, contra equipes de fora do município. A equipe contou com os seguintes jogadores naquela época: Fredão, Chico Preto, Bugrinho, Roni Braga, Mauro Trindade, Miguel Inácio, Vanderlei Ribeiro, Valdemar Schwantz (Maia), Valdir Schwantz (Tiza), Paulinho Glänzel, Valinho, Irio Schünke, Clóvis Braga, Dirceu da Rosa Gomes, entre outros.




A glória veio em 2007
Após disputar o certame municipal nos anos 80 e 90, Menegueti se afastou e Valdomiro Kochenborger, proprietário do campo, acabou desativando a praça esportiva da equipe no final da década de 90. Somente em 2007, através da iniciativa do esportista Valdomiro Lucas, o Miro, o União retornou e disputou o municipal no estádio Darcy Martin. Na sua volta ao municipal, a equipe eliminou o Ouro Verde nas semifinais. Em uma final épica contra o Ouro Preto, depois de perder o primeiro jogo por 3x0 e estar perdendo o segundo jogo por 2x0 no primeiro tempo, o União acabou virando o placar para 4x2 no tempo normal. Após 0x0 na prorrogação, a equipe da Linha Boa Vista conquistou nos pênaltis o tão sonhado título municipal. O time campeão foi formado com Diefer, Neguinho, Kiki, Marcel e Caju. Pelé, Valter, Pingo e Cebola. Choco e Lauri. Jogaram ainda Conrado, Barroges e Iri. Sobre o futuro do futebol, Menegueti diz que hoje não se faz futebol como antigamente. “Na época, não tínhamos apoio e trabalhávamos por amor à camisa. Hoje, o custo é muito alto e a juventude não tem o mesmo interesse que a gurizada da época tinha para praticar o futebol. Infelizmente o nosso futebol de campo está acabando”, diz.

Na foto principal, uma das primeiras formações do União: Hildo Rodrigues, Paíca, Pedro, Ivan Machado, Morango, Enio Sanmartin e Menegueti. Agachados: Rascunho, Duarte, Rudimar, João e Pedrinho.

Quilombo, da localidade de Quilombo








Quilombo. Na história, eram regiões de grande concentração de escravos que no período colonial fugiam de seus senhores e se refugiavam em locais de difícil acesso, embrenhados em matas, selvas e montanhas, formando aldeias. Em Candelária, uma localidade da região da serra surgiu por possuir vestígios de redutos de Quilombos. Segundo a historiadora Marli Marlene Hintz, a localidade foi colonizada em 1868 quando João Rauber e Jacob Eisenbarth passaram a vender colônias na região. Sobre o nome da localidade, ela salienta que teria se originado por causa do pesquisador Carl Von Schwerin, que em uma de suas expedições pela região (época em que era diretor da Colônia de Santa Cruz) teria encontrado vestígios de um possível Quilombo de escravos. Anos depois, foram descobertos dois redutos, sendo o primeiro no local onde estava situada a primeira igreja/escola Sinodal, que era de madeira e foi incendiada durante a Segunda Guerra Mundial. Já o outro reduto foi descoberto onde está situada a atual Igreja Sinodal e o cemitério.
Aliado às histórias e lendas da localidade, o futebol surgiu na década de 70 com a agremiação denominada por Esporte Clube Quilombo. O professor aposentado José Anger, hoje com 84 anos, foi um dos fundadores e o primeiro presidente da equipe. Segundo ele, o time do Quilombo surgiu com o término da equipe do São João, de Linha Ana. “A gurizada vinha da Linha Ana e ficava batendo bola aqui. Como foi aumentando o número de jogadores, resolvemos fazer o time”, conta. Anger, Arno Janhke, Darci Beise e os demais membros da comunidade fundaram o Quilombo. Beise recorda que um dos primeiros times foram formados com os seguintes jogadores: Guará, Orlando Gass, João Hoppe, Pescuma e Noe Anton. Cabrito, Reno Gass, Rui Beise e Lino Melz. Celestino Melz e Eliseu Rech. O primeiro campo da equipe ficava na propriedade de João Renato de Oliveira. Nos primeiros anos, o Quilombo disputava somente amistosos com equipes da região da serra e da cidade. A agremiação enfrentou Tabacos e São Bento, ambos do Passa Sete, Tiradentes, da Costa do Rio, Gaúcho e Cruzeiro, de Linha Travessão, Olarias, de Linha do Rio, entre outros. Beise e Anger destacam que em seus domínios era difícil alguém vencer o Quilombo em amistosos. “Uma vez, um torcedor do Gaúcho prometeu pagar um barril de chopp para nós e eles se o Gaúcho nos vencesse na nossa casa. Avisamos o Guará para ele tomar um gol e o Gaúcho nos derrotou naquele amistoso. Após, o torcedor cumpriu a promessa e pagou o barril de chopp e todo mundo confraternizou”, relembra o professor.
MUNICIPAIS – Após cerca de 10 anos, o Quilombo mudou o campo para a propriedade de Arno Janhke. A partir de 1985, a equipe passou a ser comandada por Darci Beise e entrou na disputa dos campeonatos municipais. Beise recorda do grupo que disputou aquele certame com a seguinte formação na equipe A: Juarez, Orlando, Clério, Priebe e Valberto. Gilnei, Dário e Edenir. Paulo Schuster, Geraldo Coalhada e Queco. Naquele ano, a equipe foi eliminada pelo Minuano, que foi o campeão daquele campeonato. Nos anos seguintes, o Quilombo voltou a disputar os municipais, chegando entre os seis melhores em 87 e nas semifinais em 88, sendo derrotado novamente pelo Minuano. Em 91, a equipe foi eliminada na primeira fase. “Naquela época, times como Olarias, Canarinho de Linha Facão, Minuano, Botucaraí, São Jorge, entre outros, eram fortes e difíceis de jogar.
Os campeonatos eram bem disputados”, relembra Darci.

Títulos chegaram em 1993
O ano de 1993 ficou marcado na história da equipe. Foi o ano em que ocorreram as duas principais conquistas da agremiação, que até hoje são lembradas por Beise. No dia 25 de julho de 1993, o Quilombo conquistou o título da Copa da Amizade, derrotando na final disputada no Estádio Darcy Martin, a equipe do Ouro Preto, do Pinheiro por 1x0. O gol do título foi marcado por Chubrega em cobrança de falta. A equipe campeã foi formada com Cristiano Dittberner, Clóvis, Poio, Dari e Pelé. Paulo Alves, Marcos Beise e Chubrega. Marco Garcia, Delano e Marco Kohl. Jogaram ainda Serginho, Valdemar, Fabiano e Roni Boijink. No final do ano, a equipe B do Quilombo sagrou-se campeã municipal após vencer nos pênaltis a equipe do Aliança, do Arroio Grande. Segundo José Cipriano de Oliveira, o Zeca, foram três empates entre as equipes e mais a disputa da prorrogação. Nos pênaltis, o Quilombo venceu por 4x2 em partida disputada no campo do Olarias, em Linha do Rio. “O Aliança tinha um bom time e foram jogos equilibrados. Foi a conquista mais suada da história”, conta. O time campeão foi formado com Clóvis, Feijão, Valdemar, Fausto e Herbert. Max, Pelé e Adelar. Zeca, Tonho e Jaques. Jogaram ainda Charles, Cleber, Luizinho, João e Caco. O treinador foi Félix Wendler. Na categoria titulares, o Quilombo não passou da primeira fase. Após os títulos conquistados em 93, a equipe foi extinta. Darci salientou que entre os motivos para o término do Quilombo estavam os problemas que a equipe enfrentava com a arbitragem na época. “Sempre procurávamos fazer um time bom para chegar e disputar os títulos, mas a arbitragem acabou nos prejudicando na grande maioria dos jogos. Então decidimos parar com o time e com o futebol aqui”, disse. Sobre uma possível reativação da equipe, Darci afirma que nos dias atuais é inviável se fazer futebol devido ao alto custo. “Naquela época, nem bem era meio-dia e os jogadores já estavam no campo para jogar. Hoje, a juventude aqui até tem a idéia de reativar o time, mas falta incentivo financeiro para custear as despesas e alguém para assumir a responsabilidade e organizar. Ninguém mais quer esse compromisso”, finalizou.

Cruzeiro, Capão do Valo





Cruzeiro, do Capão do Valo
Anos 80, uma década marcada pelo fim da ditadura militar e início da democracia na política brasileira. Década que marcou a popularização dos primeiros computadores pessoais e a descoberta da Aids. No esporte, foi um período marcado pela realização das polêmicas olimpíadas de Moscou, na antiga União Soviética, em 1980, e na cidade de Los Angeles, Estados Unidos, em 1984, que ficaram marcadas pela ingerência política no esporte em conseqüência da Guerra Fria. No futebol, Flamengo, em 81, e Grêmio, em 83, se consagram campeões mundiais. No automobilismo, Nelson Piquet e Airton Senna passam a alegrar as manhãs de domingo, conquistando vitórias e títulos mundiais na Fórmula Um. Aliado a toda essa efervescência, na localidade de Capão do Valo, interior de Candelária, duas novas equipes surgem no cenário esportivo, deixando muitas histórias em poucos anos de existência.
O agricultor João Carlos Fonte, hoje com 50 anos, foi um dos fundadores do Esporte Clube Cruzeiro, de Capão do Valo. Segundo Carlinhos, como é conhecido na comunidade, a equipe surgiu em 1984, após o término da equipe do Esporte Clube União, do Capão do Valo, fundado no início dos anos 80. Em 83 disputou as semifinais do municipal de campo, sendo eliminado pelo Olarias. No segundinho, a agremiação do campo foi campeã do certame municipal daquele ano. “Após aquela eliminação nos titulares, a maioria dos jogadores do União se desligou do time devido a discordâncias daquela partida contra o Olarias, pois tínhamos tudo para vencer e chegar a final contra o Pinheiro”, relembra. Após o término do União, no ano seguinte, Carlinhos, João Camargo e José Danilo Ottoni fundaram o Esporte Clube Cruzeiro. Ele conta que as cores do time foram definidas em azul e branco e o nome escolhido por votação entre os integrantes da equipe. O primeiro campo do Cruzeiro ficava na propriedade de Darci Gheno e, tempo depois, passou para a propriedade de Almerindo Ortiz, ao lado da capela Cristo Redentor, em Capão do Valo. O primeiro time foi formado com os seguintes jogadores: José Danilo Ottoni (Juca), José Cláudio Fonte, João Carlos Fonte, Alcemar Barbosa e Odanir Fagundes. Darci Gheno, Vitor Fagundes, Rudimar Moraes e Jurandir. Arcelino Camargo e João Camargo, que também era o treinador e organizador da equipe. “O João Camargo era quem fazia tudo. Ele era tão apaixonado pelo futebol que deixava os seus afazeres para buscar jogadores e organizar o time”, diz Carlinhos. Nos primeiros jogos, a equipe disputava torneios de futebol onze em Cachoeira do Sul, que ainda eram realizados naquela época.
MUNICIPAL – Mais tarde, revela Carlinhos, o Cruzeiro entrou no Campeonato Municipal de Futebol de 84. O ex- jogador afirma que para aquele certame, a organização liberou entre quatro e cinco jogadores de outros municípios. Com a liberação, a equipe do Capão do Valo ganhou reforço. O Cruzeiro enfrentou times como Minuano, Ouro Verde, Pinheiro, São Jorge, Botucaraí, entre outros naquele campeonato. “Me lembro de um jogo contra o Minuano aqui em nosso campo. O Telmo da Silva (já falecido) era o árbitro. Após um escanteio, o Jurandir acertou uma cabeçada no canto. A bola passou por fora da trave, mas entrando na rede pelo lado de fora e o Telmo acabou validando o gol. Apesar da pressão do Minuano, ele não voltou atrás e vencemos aquele jogo por 1x0”, recorda. O time do Cruzeiro para a disputa daquele municipal foi formado com Amarildo, José Cláudio, Alcemar, Beto e Budica. Darci, Carvão, Jurandir e Lauri Glashorester. Carlos Fonte e João Camargo. O alvi-azul do Capão do Valo acabou eliminado novamente nas semifinais para o São Jorge em partida disputada no Estádio Darcy Martin. “Aquele jogo com o São Jorge ficou marcado por uma briga generalizada entre os jogadores e torcedores das duas equipes. A partida não terminou e como o empate favorecia eles, o São Jorge foi para a final”, relata Carlinhos. Após a disputa daquele campeonato, o Cruzeiro foi desativado porque as pessoas que organizavam o time foram embora e porque o proprietário do campo, ao lado da capela da comunidade, não querer mais ceder o local para a prática esportiva. Alguns anos depois, os membros do Cruzeiro que ficaram na comunidade fundaram o Esporte Clube Boa Vista, que representou o futebol no Capão do Valo até meados da década de 90. Com a desativação do Boa Vista, o time que existe atualmente na localidade é o Grêmio Esportivo Capão do Valo, que em 2007 participou do campeonato municipal, sendo eliminado na 1ª fase.
FUTURO - Sobre o futuro do futebol no interior, Carlinhos acha que falta renovação. “Aqui no Capão do Valo, por exemplo, infelizmente a gurizada não está interessada no futebol. Eles preferem outras atividades e não se interessam pela modalidade”, diz. O ex-jogador, que também defendeu equipes como Pinheiro, Botucaraí e Canarinho, de Linha Facão, ressalta a sua preocupação com a entrada de dinheiro no futebol amador. “Joguei em vários times pela região e nunca recebi dinheiro na minha época. Hoje vejo que se a gurizada não recebe, eles não vão defender os times nos campeonatos. Infelizmente se foi a época de se jogar por amor à camisa. Hoje no amador se joga por amor ao dinheiro”, diz.
O time
O time do Cruzeiro em 1984 era formado por Juca Ottoni, Darci Gheno, Alcemar Barbosa, João Camargo, José Cláudio Fonte e Odanir Fagundes; agachados: Rudimar Moraes, Jurandir, João Carlos Fonte, Arcelino Camargo e Vitor Fagundes.